Vale mais a pena criar um app nativo ou um app web?

13.07.2019

App nativo ou nada de app nativo? Essa é uma pergunta que aparece com frequência aqui nas Torres Kittysplit. O Kittysplit é um app web razoavelmente bem-sucedido para dividir despesas em grupo, com 70.000 usuários por mês. Ele é responsivo e funciona bem no navegador do celular: 80% dos nossos usuários estão no celular. Mesmo assim, recebemos com frequência o pedido: “por favor, façam um app!” 🙏. O que os nossos usuários querem, claro, é um app “nativo”, que dá para instalar pela App Store. Já um app web é um app que funciona no navegador (por exemplo, Chrome ou Safari).

Então a resposta só pode ser fazer um app! Certo? Toda empresa que se preze tem um app.

Capturas de tela do Kittysplit

Vamos lá. Na verdade, temos quase certeza de que muitos dos nossos concorrentes, mortos há tempos, selaram o próprio destino quando decidiram que precisavam de um app. Quando você já tem um app web bom o bastante, as vantagens de ter também um app nativo não são tão grandes assim.

Os argumentos a favor de ter um app

Quais são as vantagens de ter um app nativo? Vamos passar pela lista e depois ver o que o outro lado tem a dizer.

1. Faça isso pelos usuários de celular

Se 80% dos usuários do Kittysplit estão no celular, a gente com certeza deveria dar um app para eles!

2. Permite acesso offline

Às vezes as pessoas vão para lugares sem Wi-Fi (que imprudência!) e lá têm gastos que precisam ser divididos. Com um app, elas poderiam lançar as despesas no modo offline, e tudo seria sincronizado quando voltassem a ficar online.

3. Uma loja de apps mostra a sua reputação e passa confiança

É mais fácil convencer possíveis usuários de que o seu produto vale a pena e é confiável se você tem um grande número de instalações e um monte de avaliações positivas na App Store.

4. Permite notificações push

As notificações push são o crack para fazer os usuários voltarem ao seu app. No nosso caso, os usuários poderiam ser avisados de que despesas foram adicionadas ou editadas nas Kitties de que participam.

5. Permite um ícone na tela inicial

Quando uma usuária dá de cara o tempo todo com o ícone do seu app no celular dela, a chance de ela abrir o app aumenta muito.

6. Moral para se gabar

Somos uma startup de Berlim, então precisamos de qualquer jeito de um app para exibir em bares enfumaçados às três da manhã.

Até aqui, argumentos bem sólidos. Vamos ver o que o outro lado tem a dizer.

Os argumentos contra ter um app nativo

E quais são as desvantagens de ter um app?

1. Apps nativos custam dinheiro — muito dinheiro.

Até o app mais básico, que faz pouco mais que dizer “Olá, mundo”, vai custar uns 5 mil euros. Quando o app começa a fazer coisas sofisticadas, como conversar com um servidor, esse número dispara para mais de 50 mil num piscar de olhos. E aí vem o golpe final: você vai ter que fazer o app duas vezes, uma para iOS e outra para Android. Sim, a gente conhece as soluções multiplataforma, mas elas (ainda) são ruins.

Já se você fizer um app web sólido, vai atender todo mundo, inclusive os individualistas que usam Windows Phone e outras engenhocas maravilhosas.

No nosso caso, o problema não é dinheiro (porque não temos nenhum), e sim tempo. Mas o mesmo argumento continua valendo. Como disse Richard Branson: “Tempo é o novo dinheiro”.

2. Desenvolver apps nativos é sofrido

Fazer apps é difícil. Está ficando mais fácil, mas ainda é bem mais difícil do que fazer apps web. Garantir a qualidade é um problema, principalmente no Android, por causa da fragmentação. Lançar versões novas também é uma chatice, principalmente no iOS, por causa do processo de revisão.

Já quando você atualiza um app web, todos os usuários recebem a atualização na hora e provavelmente nem percebem.

E tem também a questão da velocidade de desenvolvimento. Se você dá suporte a várias plataformas, precisa lançar os recursos em todas elas ao mesmo tempo — ou pelo menos garantir que a falta de algum recurso não quebre o produto. Isso deixa o desenvolvimento do produto muito mais lento. De novo, não é um problema se você tem uma plataforma só.

3. O onboarding de apps nativos é péssimo

Se você quer que o seu produto cresça de forma viral, precisa de um processo de onboarding bem rápido. É exatamente o que o Kittysplit tem hoje: quando alguém te manda o link de uma Kitty, bastam 2 cliques para entrar e pronto. Não tem como uma instalação de app mais um processo de identificação ser tão simples assim.

O onboarding é provavelmente o nosso ponto mais forte em relação à concorrência (junto com o fato de que ninguém precisa se cadastrar). Um app seria um grande passo para trás para nós.

4. Acesso offline

Tá, aqui o app nativo ganha de lavada. Mesmo assim, pense que ficar totalmente sem internet está ficando mais raro a cada ano. Hoje em dia, quando saímos de férias, compramos um pacote de dados, o que há cinco anos era caríssimo ou nem existia.

E ainda tem os chamados progressive web apps, que resolvem o problema de ficar offline. Mas isso fica para outro dia.

O veredito

No nosso caso, o veredito é claro: não precisamos de um app (por enquanto). Não faz sentido deixar o nosso desenvolvimento muito mais lento e expor os novos usuários a todo tipo de problema de onboarding só para melhorar um cenário relativamente raro.

Atualização de 10.09.2025: seis anos depois, acabamos fazendo um. Os pedidos por um app cresciam a cada ano, e desde que o Compose Multiplatform ficou estável, conseguimos fazer Android e iOS com um único código. Isso resolveu aquele problema de fazer o app duas vezes, que mencionamos acima. Veja as novidades. O app web continua funcionando sem precisar instalar nada, e com o link de uma Kitty ainda bastam 2 cliques para entrar.

Claro que há muitos casos em que um app nativo é o único caminho (fotos, serviços em segundo plano baseados em localização ou qualquer coisa que dependa de sensores ou de sincronização). Ainda assim, tem muita startup por aí, não só os nossos concorrentes, que faria um enorme favor a si mesma se não desse tanta prioridade a um app nativo — e talvez até se virasse sem um.